quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Espelho e silêncio

Silêncio. Além de alguns objetos antigos, nada mais sobrava naquela casa a não ser um denso silêncio que se apossava de todo o ambiente. Preencher-se de vazio era o maior desafio que agora encontrava e, mesmo que não quisesse, tinha que ouvir todo o absurdo que a ausência de som tinha para lhe comunicar. Como se houvesse sido raptado, via-se obrigado a ouvir suas vísceras se espremerem clamando por algum barulho que pudesse aquietar aquele desassossegado lugar. Não adiantava. Olhou para a poeira e, reluzente, viu a sua frente um espelho, objeto que, mesmo trincado e desgastado pelo tempo, chamou-lhe atenção. Havia muito, não se olhava no espelho e sequer se lembrava da fisionomia que agora deveria aparentar. Talvez, aquele objeto houvesse lhe despertado o interesse, por conta de uma fresta que passava por uma telha quebrada, e que lançava sobre o espelho uma luz que se refletia, talvez para lhe lembrar de que era dia, embora isso não lhe fizesse a menor diferença. Parado, olhava e o que via era um objeto estranho, levando-o a se perguntar: “será que sou eu o que vejo neste espelho?”. Resolveu, então, mexer-se e observar seus movimentos naquele objeto tão empoeirado. Para sua surpresa, a imagem não se moveu como ele e, como que a lhe desafiar, congelou-se num sorriso feliz. “Por que ele olha para mim desta forma?” – perguntava-se sem ter a menor idéia da razão de tal fato. Sabia, porém, que isso lhe deixava repleto de uma curiosidade rancorosa, cheio de vontade de pular para dentro dali e estrangular com todo ódio que lhe habitava àquele instante aquela imagem tão inquietante. Foi ao banheiro, ligou a torneira (depois de muito tempo, quebrou-se o silêncio naquela casa) e lavou o rosto. Pensou que talvez fossem as madrugadas em claro que lhe houvessem danificado a visão e que, lavando o rosto com água gelada, poderia enxergar melhor e simplesmente se ver ali. Voltou ao quarto onde ficava o espelho, olhou firmemente para ele, com uma atenção que há tempos não dispensava a nada, como se estivesse lhe dizendo que agora o veria do modo correto. A imagem, de fato, já não estava mais da mesma forma, apesar de ainda ser o mesmo rosto estranho. Estava, porém, demonstrando um sorriso ainda mais largo e os olhos brilhavam tanto quanto o reflexo da luz que batia no espelho. Mais uma vez, era-lhe enigmática e lhe despertava cólera a “reação” da imagem a si. Afinal, de onde poderia vir aquele reflexo se tudo ali era silêncio e poeira? Inquieto e enfurecido, olhou para todos os lados e não encontrou nada que se parecesse com o que via naquele velho espelho. Tentou não olhar aquela imagem e prestar atenção a outros objetos presentes naquela casa escura, abafada e silenciosa. Infrutífera, porém, a tentativa, pois, quando se apercebeu, estava mais uma vez com o olhar fixado naquele espelho que, desta vez, mantinha a mesma imagem que apresentava quando foi olhado pela última vez, sorriso ainda largo e olhar igualmente brilhante. Seu sentimento, agora, não era de fúria, mas sim de saudade. Mesmo não sendo a pessoa que via no espelho, veio-lhe a lembrança de um antigo amor e o silêncio agora, misturado àquela imagem, soava como um cântico selvagem – estridente e profundo. Sua saudade não lhe remetia a momentos ou imagens, senão à sensação da presença daquela mulher de quem nem bem se lembrava do rosto, mas a respeito da qual sentia a sensação exata do prazer que era compartilhar com ela a vida. Ao se aperceber dessa devastadora saudade, interrompeu o silêncio com um grito que parecia vir de uma dor tão profunda quanto à de um parto. E, de fato, era isso que parecia acontecer naquele instante. Estava parindo algo grande dentro de si e que lhe rendia sensações de certeza e dor, pois, assim como se sabia desejante, sabia-se vorazmente amante e lhe era estranho não tê-la consigo àquele momento. Tomado pela saudade e pela dor do parto, do qual era parteiro e parturiente, olhou mais uma vez para o espelho e o que viu já era outra imagem. Esta, aliás, apesar de ainda não lhe ser familiar, impunha-lhe um nome: saudade. Não se lembrava do nome da mulher, mas sabia que a presença de sua ausência lhe tomava por inteiro naquela hora. Assim como a imagem não era sua, sentia-se refém daquela mulher, de quem não se lembrava do nome, e que, no meio daquela poeira e do todo o silêncio que insistia em tomar conta do lugar, por ora se chamava saudade. E porque sabia que era dela, não tinha outra escolha, senão senti-la por todo o tempo e em todas as coisas, pois tudo o que havia para si naquele instante era silêncio, poeira, um espelho e Saudade.

Um comentário:

Diana disse...

“...via-se obrigado a ouvir suas vísceras se espremerem clamando por algum barulho que pudesse aquietar aquele desassossegado lugar...” nossa que surreal não!! (adorei esse trecho). O “estranho” de nós mesmos pode ser tão assustador, como o barulho das visceras!!! Achei bacana o elemento do “espelho” na estória, tornou o texto bem enigmático. Um espelho que deveria refletir o real, mas reflete o que não sou! Um espelho que reflete um “outro” que fui um dia!!! O espelho é muito utilizado tb no cinema, com essa finalidade do desconhecido, do suspense! Muito legal o texto! :D

Diana