Caminhava pela beira da praia e, pela primeira vez em muitos anos, conseguia prestar atenção à mistura de virulência e delicadeza a que lhe remetiam as ondas do mar. Havia perdido as contas do tempo transcorrido desde que pisou naquela areia pela última vez. Era uma praia simples, longe da badalação de outros pedaços de litoral. Consigo apenas o vento, o mar e a areia, que parecia lhe insistir a formação de marcas presentes, antes que o mar as apagasse, como já havia feito com o que outrora passou por ali. Andava lenta e silenciosamente, estasiado, como quem lança a vista a algo pela primeira vez. E era exatamente assim que se via: enxergando o mar, o seu mar, de modo absolutamente inédito. Olhou fixamente para o horizonte e logo se imaginou no infinito que lhe indicava aquela paisagem. Viu-se lançado ao absurdo que só algo que lhe parecia sem começo nem fim pode provocar. Quanto mais imaginava, mais perdido se via e tinha enorme vontade de mergulhar fundo nos mistérios indicados por aquele lugar. Eufórico por sua sua fantasia, viu-se nu e pronto para mergulhar o mais longe e fundo que suportasse. E assim o fez. O tempo passava e, ao invés de falta de ar, vinha-lhe mais força a cada distância percorrida e já não se mexia às custas qualquer processo fisiológico vulgar. Parecia ser movido a desejo e ele não fazia ideia da voluptuosidade que acompanha os desejantes. Achava que desejo era apenas querer algo e agora descobria que, na verdade, poderia significar bem mais; naquele momento, desejo era, também, querer ser tragado por esse algo que se queria. Desejar, para ele, era, deliberadamente, lançar-se fundo ao além do que imaginava o corpo e ver esse mesmo corpo querer mais e o que ele desejava naquele momento era tão profundo que lhe exigia faltar o ar. Descobria, então, que sentir falta de ar poderia significar sentir-se vivo.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Presente
Improvável, diriam alguns. O encontro de seus encantos não cruzaria as ruas daquela cidade, se não fosse naquela precisa hora e naquele exato dia. E só com essa exatidão para desafiar os cálculos tão precisos que previam probabilidades. Horas antes, e nada feito. Seu tempo não seria o presente leve e intenso em que se desenrola um beijo, senão que ficaria confinada ao futuro do pretérito. E era exatamente por naquele instante não terem nem futuro nem pretérito que puderam se enxergar ali mesmo. Nem ancestralidades, nem aspirações muito além do dia seguinte, por mais que o desejo conspirasse contra a vontade de ambos e lhes demandasse uma segunda, uma terceira e quantas mais vezes fossem necessárias para se reconhecerem. Seus sentidos se conjugaram em alegria, leveza e desejo de agora, renunciando por um fugaz instante a tudo o que já sonharam um dia. Ignoravam a longevidade daquela sensação e pouco lhes importava isto. É que por ser bom, desejavam preservar o que ocorria do exato modo como acontecia. E caso os curiosos ao redor lhes perguntassem o que era mesmo que se passava ali, responderiam, como se houvessem combinado uma resposta, que se tratava de um acontecimento, simplesmente. Desses que, de tão novos, não se encerram numa denominação vulgar. Eram maduros demais para se apaixonarem assim, no primeiro olhar, mesmo que o que sentissem lhe apontasse beleza e encanto. Eram também desejosos demais para se contentarem com contemplação. A simplicidade da atualidade que se desenvolvia os impulsionava para um instante a mais nos que se sucediam e, por isso mesmo, não ousavam falar em amanhã, mesmo sabendo que ele surgiria independentemente da vontade de ambos.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Luz e sentido
domingo, 3 de outubro de 2010
O jardineiro-jardim II
Para Adriana, com carinho, cuidado e intensidade
“Quer entrar?” – esta foi a frase que ele escutou, numa das muitas andanças que vinha fazendo nas ruas da cidade. Era tudo muito estranho ali. E essa estranheza não se dava apenas pelo convite em si, mas, sobretudo, pelo lugar de onde ele vinha. Numa cidade com exuberamente vegetação, foi um pequeno jardim colorido e maltratado que lhe chamou atenção. Mas como poderia ser chamado por algo que nem mesmo poderia falar? Desviou a atenção quanto ao convite e prosseguiu, como se nada tivessse ouvido, como se fosse um delírio encadeado pelo impacto da beleza do que via – um desejo de que, de fato, fosse possível ser chamado para dentro de um lugar de tamanha beleza, que chamava atenção exatamente pelo contraste em relação ao que costumava ver. Enquanto a cidade era repleta de árvores gigantes e imponentes, aquele jardim lhe mostrava simplicidade e delicadeza, mesmo que, à distância, lhe exibisse austeridade. Sua descrença, porém, logo foi questionada pela repetição do chamado. Tratou, então, de tapar os ouvidos, pois era-lhe difícil acreditar num acontecimento daquele tipo. Continuou, porém, a ouvir o convite, igualmente intenso e, sobretudo, verdadeiro. Percebeu, então, que não se tratava de um delírio e que, ainda mais estranho, não percebia o que lhe aparecia com os simples órgão dos sentidos. O sentido, se havia, era de outra ordem, que lhe instigava a ver sem olhos e ouvir sem ouvidos. A única evidência que lhe guiava era a sensação pulsante de um desejo mútuo, mesmo que não soubesse muito bem de quê. Aproximou-se das plantas de olhos fechados e tocou-as com um misto de cuidado e desejo. Era a primeira vez que percebia a possibilidade da confusa equação entre intensidade e leveza. Era uma mistura confusa entre a suavidade do carinho e a avassaladora voluptuosidade do desejo. Habitava seus olhos, então, uma beleza singular, vista somente por quem se permite a loucura de uma experiência em que se precisa estar embotado de uma miopia para ver melhor, pois tudo lhe parecia nítido. E se lhe perguntassem como era possível, muito provavelmente responderia: “não sei.”. Logo ele, sempre acostumado a dar precisas e rebuscadas respostas e se regozijar por isto, constatava com imensa e inédita satisfação sua incrivelmente bem-vinda ignorância. Descobria, naquele instante, que a ignorância poderia ser sábia e, por que não, um ato de liberdade tão legítimo quanto a mais lógica das equações. Sentia-se cuidado pelas plantas que habitavam o jardim e, em mais um fato único, viu-se cheirado por elas. “A memória das plantas” – pensou – “é olfativa e este parece ser seu jeito de dizer que sou bem-vindo, que posso vir quando quiser.”. Um sentimento de gratidão pelo lugar e seus habitantes inundava-lhe, mas não sabia como expressar isto. Todas as ideias que lhe vinham pareciam pequenas e toscas diante da beleza do que estava vivendo ali. E seria pouco, pelo simples fato de ainda não saber muito bem dar um nome ao que acontecia, pois em tudo aquilo lhe era novo. Chegou, então, à conclusão de que o suave, delirante, intenso e profundo encontro que se produzia ali não era seu, nem do jardim e que portanto não fazia sentido agradecer a ninguém. Passou, então, a contemplar e cuidar como forma de dizer: “quero-te sempre bem cuidado, pois tua beleza e carinho me tornam belo e cuidadoso.”.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
A liberdade de cair
“Te equilibra!”, “Segura firme o guidão.”, “Pedala com força!”, “Olha pra frente e reto!”. Essas eram as frases que Andrea escutava de seus amigos enquanto tentava, depois dos trinta anos de idade, equilibrar-se numa bicicleta de cesto na frente, dessas feitas para meninas. Ao que tudo indicava, todos ali pensavam que a dificuldade de Andréa era de caráter técnico, e lhe indicavam o modo de superá-la através da claras, simples, e, por que não dizer, óbvias instruções sobre o procedimento correto a ser adotado para conseguir se equilibrar, pedalar e levar adiante a bicicleta que conduzia. Aliás, pela inabilidade que demonstrava naquele momento, mais parecia ser carregada pela bicicleta, pois não demonstrava ter qualquer controle sobre ela. Como uma criança que tenta aprender a andar, oscilava entre momentos em que demonstrava firmeza e vaga esperança de que fosse conseguir executar aquela simples tarefa. Andréa, porém, diferenciava-se da criança por saber exatamente o que fazer. A ela, eram muito claros todos aqueles passos e nunca duvidou de que equilíbrio somado a firmes pedaladas fatalmente a faria andar de bicicleta. Guardava consigo a resposta a uma pergunta que nunca lhe fizeram: a do porquê de nunca haver tentado. Provavelmente, nunca lhe haviam perguntado porque o espaço entre a dúvida das pessoas e a sua resposta era preenchido por muitas interjeições, sempre indicando o absurdo que lhes parecia aprender algo tão simples àquela idade. Se lhe perguntassem, talvez pudessem compreender o porquê daquilo, pois sua resposta era tão simples quanto a atividade que se propunha: não queria cair. E por não querer cair, pouco se arriscava a essa possibilidade. Por sinal, poucos foram os arranhões que teve na pele até aquela idade e pretendia manter assim por longos anos. Mas aquele dia era diferente, pois acordou com vontade de cair. É como se, antes mesmo de se lenvantar da cama, tivesse caído. Pelo menos em sua sempre fértil imaginação. E naquela tarde, pôs-se, caída em pensamento, sobre a bicicleta, sabendo exatamente o que fazer e como fazer. Era movida por algo distinto de coragem e segurança. O inverso dessas sensações talvez dissesse melhor daquele momento, pois o que a fazia subir na bicicleta era a afirmação da possibilidade de ter medo, ser insegura e, mesmo assim, tentar. Neste sentido, cair ou não cair faziam parte de uma única possibilidade: andar de bicicleta. Por isto mesmo, apesar de oscilante na técnica, estava firme em seu propósito de arriscar-se cair. Inicialmente, seguia empurrada e sustentada por um amigo, que deixava claro o prazer de poder exercer aquela função. Para ele e para quem acompanhava de perto com instruções técnicas, era tudo uma grande diversão. Afinal, era engraçado observar o que ocorria. A diferença residia exatamente na posição de cada um. Enquanto os “instrutores” e o amigo que a apoiava eram observadores, Andrea participava, de modo que era parte integrante da situação. Isto fazia com que, ao invés de engraçado, o que ocorria lhe trouxesse a sensação de profunda intimidade consigo mesma, revelação de sentidos até então intocados. Diante de tal mistério sobre si mesma, cambeleante e ainda apoiada pelo amigo, deu a primeira pedalada e, rapidamente, a segunda e as que se seguiam. A cada pedalada, a sensação de ver revelada uma pequena peça do quebra-cabeça que falava de si mesma e, mais do que sua montagem completamente e perfeita, a clareza de que ele existia, sempre incompleto ou com excesso de peças. Admitir-se um quebra-cabeças que não se fecha era impensável para Andrea, sempre dona de si, com respostas e explicações para tudo de sua vida, que mais parecia um desenho de traço reto e contornos bem definidos. Uma a uma, as peças que não se encaixavam pareciam passear por todo o seu corpo, que se esforçava integralmente em produzir um movimento novo, uma revelação de seu contrário inimaginável a partir de simples pedaladas. Naquele instante, ela era a profusão de sentimentos que a habitavam e já não mais ouvia as instruções dadas. Tudo o que via e ouvia eram imagens confusas e palavras balbuciadas, como que inventadas antes mesmo de um idioma, eram sons emitidos em código indecifrável até mesmo para ela, que os pronunciava sem nem bem entender o porquê disto. Tomada pelo sentimento de ineditismo do instante, Andrea resolveu olhar a seu redor e, para sua surpresa, não mais via as pessoas que lhe acompanhavam e o único som que lhe chegava era o do vento que batia em seu rosto, que se misturava às sensações confusas de mistério sobre si mesma. Andrea não sabia até quando aquele movimento duraria ou onde iria parar de pedalar, mas tinha clareza de que no trajeto incerto que desenvolvia, começava a se questionar sobre o sentido da palavra liberdade.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
O jardineiro-jardim
E se um jardim pudesse falar? E se ao passar em frente a plantas bonitas, de bom cheiro, mas machucadas por maus tratos, ele se sentisse impelido a cuidar delas? Nunca havia se feito esta pergunta, ou cogitado tal possibilidade. De fato, de seres inanimados não poderia ouvir exigência alguma, a não ser uma necessidade que ele mesmo possuía de admirá-las, de compreendê-las como coisas e, assim, algo incapaz de pedir algo a alguém. Ele, que nem mesmo era jardineiro, ou imaginava possuir a habilidade de cuidar de qualquer planta, se viu cultivando algo. Por vezes, parecia um momento bobo. Cores bobas, gestos bobos, simples demais para parecer tão potente, tão poético. E aconteceu assim: sem mais, nem menos – no tamanho e na forma exata para se capturar – ou seria o nome disso liberdade? Era ilógico para si pensar isto; afinal, deixar-se capturar pela exuberância de um jardim sem nem mesmo saber o nome das plantas que ali havia, ou receber qualquer instrução sobre que cuidados ter. Passou na rua, viu as bonitas flores ali plantadas e, quando deu por si, já as cuidava, como se já fosse sua função há muito tempo. Suas técnicas – se é que as possuía – se confundiam com uma sincronia leve e harmônica entre o desejo de contemplar as flores do local e a necessidade de contribuir para que aquela paisagem, já bela, lhe parecesse exuberante. Para si, era como uma dança, embora não soubesse dançar. Tratava-se de dança, porque tudo era movimento, transformação e enriquecimento. Aliás, isso se dava de modo mútuo, para sua grande surpresa. Percebia que cuidar do jardim era também cuidar de si e se perceber crescendo junto e não soube, então, distinguir, se de fato era um jardineiro ou se também era jardim.
terça-feira, 6 de julho de 2010
Das vantagens de ser bobo - Clarice Lispector
O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir, tocar no mundo.
O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas.
Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo, estou pensando”.
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem.
Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas.
O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver.
O bobo parece nunca ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer.
Resultado: não funciona.
Chamado um técnico, a opinião deste era que o aparelho estava tão estragado que o concerto seria caríssimo: mais vale comprar outro.
Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e, portanto estar tranqüilo.
Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros.
Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera.
É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: “Até tu, Brutus?”
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu.
Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.
Os espertos ganham dos outros. Em compensação, os bobos ganham a vida.
Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás, não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.
É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca.
É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.
- Clarice Lispector in “A Descoberta do Mundo”