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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Quando não se vê tudo

A mulher fala para o marido:

– Não vejo tudo isso que você diz que vê em mim.
            – Nem eu. De fato, não vejo tudo. – responde ele.
            – Então você está mentindo?
            – Não. Jamais faria isso.
            – E o que é?
            – É que nunca vi nada tão bonito assim.
            – Tá, mas você vê ou não vê? Fiquei confusa. Gosto das coisas lógicas.
            – É simples. Você já reparou que fico sempre olhando atentamente pra você?
            – Já, sim. Isso, inclusive, chega a me irritar às vezes.
            – Você já se perguntou por que faço isso?
            – Não.
            – É que quando lhe olho, acho tudo tão bonito que não cabe na minha retina de uma vez. Preciso olhar de modo fracionado, pra ver tudo. Não vejo tudo da sua beleza. Apenas pedaços que se juntam num só afeto: amor. Só não sabia que uma palavra tão pequena formaria uma imagem tão grande a ponto de não poder ser capturada pela retina. Por isso, te olho sempre, que é pra ver se juntando imagens te tenho por inteiro em algum instante entre nós.
            Sussurro, silêncio e luzes apagadas.
           

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Presente

Improvável, diriam alguns. O encontro de seus encantos não cruzaria as ruas daquela cidade, se não fosse naquela precisa hora e naquele exato dia. E só com essa exatidão para desafiar os cálculos tão precisos que previam probabilidades. Horas antes, e nada feito. Seu tempo não seria o presente leve e intenso em que se desenrola um beijo, senão que ficaria confinada ao futuro do pretérito. E era exatamente por naquele instante não terem nem futuro nem pretérito que puderam se enxergar ali mesmo. Nem ancestralidades, nem aspirações muito além do dia seguinte, por mais que o desejo conspirasse contra a vontade de ambos e lhes demandasse uma segunda, uma terceira e quantas mais vezes fossem necessárias para se reconhecerem. Seus sentidos se conjugaram em alegria, leveza e desejo de agora, renunciando por um fugaz instante a tudo o que já sonharam um dia. Ignoravam a longevidade daquela sensação e pouco lhes importava isto. É que por ser bom, desejavam preservar o que ocorria do exato modo como acontecia. E caso os curiosos ao redor lhes perguntassem o que era mesmo que se passava ali, responderiam, como se houvessem combinado uma resposta, que se tratava de um acontecimento, simplesmente. Desses que, de tão novos, não se encerram numa denominação vulgar. Eram maduros demais para se apaixonarem assim, no primeiro olhar, mesmo que o que sentissem lhe apontasse beleza e encanto. Eram também desejosos demais para se contentarem com contemplação. A simplicidade da atualidade que se desenvolvia os impulsionava para um instante a mais nos que se sucediam e, por isso mesmo, não ousavam falar em amanhã, mesmo sabendo que ele surgiria independentemente da vontade de ambos.