quinta-feira, 10 de março de 2011

Precisão do impreciso

O que dizer quando tudo o que tenho para lhe falar já lhe é amplamente conhecido? Que palavras buscar quando o ato de estar juntos reúne consigo todo o vocabulário antes utilizado para pronunciar verbos usados por aí aos montes pelos que se sentem enamorados? Ao que me parece, tatear palavras não é apenas folhear dicionários. Aliás, não poderia haver verbo mais feliz para isto do que tatear, pois o toque pelo que se constitui de pele talvez seja uma forma de se atingir essa verdade – muitas vezes plena e impronunciável. É que o corpo não precisa de palavras, pois elas, quando profundas, emergem do corpo e circunscrevem-no através do reconhecimento da necessidade de um limite que vise a dar compreensão. E aí reside um problema: o corpo pulsa a cada instante, vivo, intenso, fugidio, intumescido de sentidos em movimento, enquanto a palavra busca aprisionar isto que se move mais rápido do que sua própria pronúncia, como peças expostas num museu de cera. Mas por que esta disparidade? É que o corpo é vivo e a palavra é morta e somente o que é vivo capta o desenrolar de instantes mágicos, intensos e apaixonados como o que me ocorre no tempo exato em que produzo estas linhas. Fora deste campo, caminho num imenso cemitério de palavras composto pelo que um dia foi movimento e intensidade. Por isto mesmo, usar o verbo amar aqui me parece pouco, mas ao mesmo tempo necessário. Pode funcionar como uma espécie de porta de entrada, um portal que leva a caminhos outros que não os da linguagem habitual. É que a linguagem habitual é da ordem do entendimento e da compreensão. Sem isto, nada se comunica em meios ordinários. Todavia, não é ordinária a vontade de comunicar algo a um único alguém apenas e, por isto mesmo, buscar outra via de fazê-lo é dignificar um sentido que a ninguém mais precisa se tornar claro. Assim, quando digo que te amo, quero que entendas que te falo mais do que isso. Na verdade, te faço o convite de caminhar pelo inexplorado mistério do campo dos que dispensam a palavra como recurso essencial através da curiosa, intensa e apaixonada busca pelo sentido epidérmico e singular deste verbo tão ordinário. Fora do contato e do corpo, não existe verdadeiramente amar; apenas palavras.

3 comentários:

Nilzabeth disse...

Palavras também escapam quando a gente se depara com um texto belo assim. Lindo! Amei.

Junia disse...

Agora vc se superou mesmo...ADOREI!!!!!!!!!

Drica disse...

Por não ter intimidade com as palavras (elas sempre me fogem e quando não o fazem transmitem mensagens nem sempre tão precisas), me apego ao corpo para expressar todo o amor que mereces.