O frio suor que escorria por sua testa e a palpitação desenfreada de seu coração denunciavam: não havia mais controle e, assim, nem sua fachada intelectual, nem seu excesso de pudor poderiam lhe negar a pesada obviedade de que tinha diante de si o que de mais belo já havia se apossado de sua visão. Após tanto tempo de contemplação, finalmente podia chegar perto, sentir o cherio, saber que era real e, nem por isso, perder o encantamento por ela. E tudo poderia ser sintetizado na mínima distância que a separava de sua boca. Era como se no interstício que havia entre ambos pudesse se concentrar toda a beleza que lhe tomava a visão e todo resto do corpo – era difícil ver com o corpo todo, pois, ao invés de imagens, sensações estavam presentes. Não era capturar a presença dela numa fotografia e, então, emoldurá-la e pendurá-la na parede. Essas sensações o remetiam à fugacidade do instante em que se encontrava. Não era, aliás, um instante qualquer, pois o encantamento que o tomava era tão forte quanto a tensão da dúvida sobre o que aconteceria a partir dali. Tudo era mistério e desejo e havia a nítida – se é que é possível nitidez quando o desejo pulsa – sensação de que a situação se guiava por si. O mais absurdo que lhe parecia era que, exatamente por não ter qualquer controle, sentia uma a mais plena liberdade. Nunca havia se sentido tão livre e, ao mesmo tempo, tão entregue, tão rendido, tão belo. Naquele momento, pensou a respeito do lugar onde se situava a beleza do que via e, numa lucidez só permitida a quem se permite apaixonar, e, portanto, ser livremente entregue, percebeu que a beleza não estava nem em seus olhos, nem no corpo que lhe aparecia adiante. Se havia morada para isto, ficava em algum lugar entre os dois; possivelmente, entre o olhar de quem olhava e o de quem (em forma de resposta) era olhado. Era como se houvesse uma linha tênue e invisível para quem não estivesse tomado por aquele intenso sentimento de paixão e admiração e que era sustentado pelos dois olhares. O mais paradoxal dessa linha é que, quanto mais se aproximavam, mais forte ela se tornava. Chegar próximo dela, portanto, era se aproximar de si e perceber que havia nele coisas tão belas e livres que lhe permitiam o nobre e arriscado sentimento da paixão.
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Liberdade entregue
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Congresso Internacional do medo - Drummond

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que estereliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
O mistério - Lobão
Acho que o mistério me escapa
E daí que estou cansado
Talvez um dia eu acabe por me convencer
De que estou enganado
E ache o porquê
De todo o mal parado
Que eu senti sem ver
E talvez um dia respirar sem medo
Nada me leva a crer que eu descubra
Todo esse segredo a tempo
E a vontade de saber o que aconteceu
Não me sai do pensamento
Não me deixa respirar
Não me sai da idéia o tempo
Até o mistério clarear
E depois de tudo descansar sem medo
domingo, 9 de maio de 2010
Patrícia
Mais fácil seria se a tivessem dito histérica. Patrícia ainda se perguntava o que, afinal de contas, ocorria consigo àquela altura. Era tudo muito confuso para si e o que lhe vinha era uma sucessão de imagens sem qualquer nitidez e sentimentos que, em sua maioria, não se podiam nomear. De uns tempos para cá, medo era uma palavra muito em voga para si e, diante dele, não tomava qualquer atitude a não ser recuar. Seu recuo, dizia para os mais íntimos, nada mais era do que uma forma de se proteger. Porém, ao afirmar isto, perguntava-se : “proteger-me de quê? Estou sendo atacada por algo?”. Exatamente por não ter respostas, achava-se inquieta e buscava um sentido para todo aquele medo e o único sentimento que conseguia identificar era sua absoluta sensação que não havia lugar para si no mundo. Era como se, desde que começou a se sentir medrosa, não mais tivesse um lar para onde se referir. Por uns tempos, isto lhe soava como algo bom, afinal, sentia-se livre, pronta para abraçar a vida por não levar em seus braços nada mais que desejo. Talvez, aí, residisse seu problema: contra sua vontade, o desejo de Patrícia insistia em querer ter uma bússola, apontar para um rumo, coisa difícil pra quem insiste em mergulhar em sua própria liberdade. Por isto mesmo, a ideia de ser livre, por mais contraditório que lhe fosse, era sua própria prisão. Não porque tivesse que escolher, mas porque se percebia desejando isto o tempo inteiro. Seu desejo de ser livre ultrapassava qualquer outro que viesse a se fazer presente. Pensava consigo: “ser livre é poder escolher. Mas para que ser livre se escolher me assusta tanto?”. Refém de sua própria liberdade, Patrícia tinha dúvidas até mesmo de sua condição, pois buscava um caminho, mas não achava que poderia se considerar perdida, uma vez que só se perde quem tem uma referência para se considerar perdido, assim como só pode ser destro quem sabe de seu oposto. Seria uma condição indefinida? Difícil para ela se dizer assim, pois, por mais misteriosa que tentasse ser, Patrícia sabia de sua verdadeira necessidade de se dizer alguma coisa. Não era, porém, livre, pois se sentia refém de seus sonhos de liberdade. Não era apegada a nada e, se lhe havia amor, este nem mesmo sabia para onde apontar. Não tinha um caminho por onde se perder, pois toda referência para si foi abolida por um desejo absurdo e prepotente de liberdade plena. Liberdade que não passava por si, nem por outrem e que nem mesmo parecia ser deste mundo e que, portanto, mais lhe mostrava seus limites do que lhe afirmava vidas possíveis. Que vida, então, ser-lhe-ia possível? Talvez, a de perder sua própria vida.
segunda-feira, 22 de março de 2010
Macacos - Clarice Lispector
Da primeira vez que tivemos em casa um mico foi perto do Ano Novo. Estávamos sem água e sem empregada, fazia-se fila para carne, o calor rebentara e foi quando, muda de perplexidade, vi o presente entrar em casa, já comendo banana, já examinando tudo com grande rapidez e um longo rabo. Mais parecia um macacão ainda não crescido, suas potencialidades eram tremendas. Subia pela roupa estendida na corda, de onde dava gritos de marinheiro, e jogava cascas de banana onde caíssem. E eu exausta. Quando me esquecia e entrava distraída na área de serviço, o grande sobressalto: aquele homem alegre ali. Meu menino menor sabia, antes de eu saber, que eu me desvaria do gorila: "E se eu prometer que um dia o macaco vai adoecer e morrer, você deixa ele ficar? E se você soubesse que de qualquer jeito ele um dia vai cair da janela e morrer lá embaixo?" Meus sentimentos desviavam o olhar. A inconsciência feliz e imunda do macacão-pequeno tornava-me responsável pelo seu destino, já que ele próprio não aceitava culpas. Uma amiga entendeu de que amargura era feita a minha aceitação, de que crimes se alimentava meu ar sonhador, e rudemente me salvou: meninos do morro apareceram numa zoada feliz, levaram o homem que ria, e no desvitalizado Ano Novo eu pelo menos ganhei uma casa sem macaco.
Um ano depois, acabava eu de ter uma alegria, quando ali em Copacabana vi o agrupamento. Um homem vendia macaquinhos. Pensei nos meninos, nas alegrias que eles me davam de graça, sem nada a ver com as preocupações que também de graça me davam, imaginei uma cadeia de alegria: "Quem receber esta, que a passe a outro", e outro para outro, como o frêmito num rastro de pólvora. E ali mesmo comprei a que se chamaria Lisette.
Quase cabia na palma da mão. Tinha saia, brincos, colar e pulseira de baiana. E um ar de imigrante que ainda desembarca com o traje típico da sua terra. De imigrante também eram os olhos redondos.
Quanto a essa, era mulher em miniatura. Três dias esteve conosco. Era de uma tal delicadeza de ossos. De uma tal extrema doçura. Mais que os olhos, o olhar era arrendondado. Cada movimento, e os brincos estremeciam; a saia sempre arrumada, o colar vermelho brilhante. Dormia muito, mas para comer era sóbria e cansada. Seus raros carinhos eram só mordida leve que não deixava marca.
No terceiro dia estávamos na área de serviço admirando Lisette e o modo como ela era nossa. "Um pouco suave demais", pensei com saudade do meu gorila. E de repente meu coração foi respondendo com muita dureza: "Mas isso não é doçura. Isto é morte." A secura da comunicação deixou-me quieta. Depois que eu disse aos meninos: "Lisette está morrendo." Olhando-a, percebi então até que ponto de amor já tínhamos ido. Enrolei Lisette num guardanapo, fui com os meninos para o primeiro pronto-socorro, onde o médico não podia atender porque operava de urgência um cachorro. Outro táxi ¾Lisette pensa que está passeando, mamãe ¾outro hospital. Lá deram-lhe oxigênio.
E com o sopro de vida, subitamente revelou-se uma Lisette que desconecíamos. De olhos muito menos redondos, mais secretos, mais aos risos e na cara prognata e ordinária uma certa altivez irônica; um pouco mais de oxigênio, e deu-lhe uma vontade de falar que ela mal agüentava ser macaca; era, e muito teria a contar. Breve, porém, sucumbia de novo, exausta. Mais oxigênio e dessa vez uma injeção de soro a cuja picada ela reagiu com um tapinha colérico, de pulseira tilintando. O enfermeiro sorriu: "Lisette, meu bem, sossega!"
O diagnóstico: não ia viver, a menos que tivesse oxigênio à mão e, mesmo assim, improvável. "Não se compra macaco na rua", censurou-me ele abanando a cabeça, "às vezes já vem doente." Não, tinha-se que comprar macaca certa, saber da origem, ter pelo menos cinco anos de garantia do amor, saber do que fizera ou não fizera, como se fosse para casar. Resolvi um instante com os meninos. E disse para o enfermeiro: "O senhor está gostando muito de Lisette. Pois se o senhor deixar ela passar uns dias perto do oxigênio, no que ela ficar boa, ela é sua." Mas ele pensava. "Lisette é bonita!", implorei eu. "Ë linda", concordou ele pensativo. Depois ele suspirou e disse: "Se eu curar Lisette, ela é sua". Fomos embora, de guardanapo vazio.
No dia seguinte telefonaram, e eu avisei aos meninos que Lisette morrera. O menor me perguntou: "Você acha que ela morreu de brincos?" Eu disse que sim. Uma semana depois o mais velho me disse: "Você parece tanto com Lisette!" "Eu também gosto de você", respondi