domingo, 9 de maio de 2010

Patrícia

Mais fácil seria se a tivessem dito histérica. Patrícia ainda se perguntava o que, afinal de contas, ocorria consigo àquela altura. Era tudo muito confuso para si e o que lhe vinha era uma sucessão de imagens sem qualquer nitidez e sentimentos que, em sua maioria, não se podiam nomear. De uns tempos para cá, medo era uma palavra muito em voga para si e, diante dele, não tomava qualquer atitude a não ser recuar. Seu recuo, dizia para os mais íntimos, nada mais era do que uma forma de se proteger. Porém, ao afirmar isto, perguntava-se : “proteger-me de quê? Estou sendo atacada por algo?”. Exatamente por não ter respostas, achava-se inquieta e buscava um sentido para todo aquele medo e o único sentimento que conseguia identificar era sua absoluta sensação que não havia lugar para si no mundo. Era como se, desde que começou a se sentir medrosa, não mais tivesse um lar para onde se referir. Por uns tempos, isto lhe soava como algo bom, afinal, sentia-se livre, pronta para abraçar a vida por não levar em seus braços nada mais que desejo. Talvez, aí, residisse seu problema: contra sua vontade, o desejo de Patrícia insistia em querer ter uma bússola, apontar para um rumo, coisa difícil pra quem insiste em mergulhar em sua própria liberdade. Por isto mesmo, a ideia de ser livre, por mais contraditório que lhe fosse, era sua própria prisão. Não porque tivesse que escolher, mas porque se percebia desejando isto o tempo inteiro. Seu desejo de ser livre ultrapassava qualquer outro que viesse a se fazer presente. Pensava consigo: “ser livre é poder escolher. Mas para que ser livre se escolher me assusta tanto?”. Refém de sua própria liberdade, Patrícia tinha dúvidas até mesmo de sua condição, pois buscava um caminho, mas não achava que poderia se considerar perdida, uma vez que só se perde quem tem uma referência para se considerar perdido, assim como só pode ser destro quem sabe de seu oposto. Seria uma condição indefinida? Difícil para ela se dizer assim, pois, por mais misteriosa que tentasse ser, Patrícia sabia de sua verdadeira necessidade de se dizer alguma coisa. Não era, porém, livre, pois se sentia refém de seus sonhos de liberdade. Não era apegada a nada e, se lhe havia amor, este nem mesmo sabia para onde apontar. Não tinha um caminho por onde se perder, pois toda referência para si foi abolida por um desejo absurdo e prepotente de liberdade plena. Liberdade que não passava por si, nem por outrem e que nem mesmo parecia ser deste mundo e que, portanto, mais lhe mostrava seus limites do que lhe afirmava vidas possíveis. Que vida, então, ser-lhe-ia possível? Talvez, a de perder sua própria vida.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Macacos - Clarice Lispector

Da primeira vez que tivemos em casa um mico foi perto do Ano Novo. Estávamos sem água e sem empregada, fazia-se fila para carne, o calor rebentara e foi quando, muda de perplexidade, vi o presente entrar em casa, já comendo banana, já examinando tudo com grande rapidez e um longo rabo. Mais parecia um macacão ainda não crescido, suas potencialidades eram tremendas. Subia pela roupa estendida na corda, de onde dava gritos de marinheiro, e jogava cascas de banana onde caíssem. E eu exausta. Quando me esquecia e entrava distraída na área de serviço, o grande sobressalto: aquele homem alegre ali. Meu menino menor sabia, antes de eu saber, que eu me desvaria do gorila: "E se eu prometer que um dia o macaco vai adoecer e morrer, você deixa ele ficar? E se você soubesse que de qualquer jeito ele um dia vai cair da janela e morrer lá embaixo?" Meus sentimentos desviavam o olhar. A inconsciência feliz e imunda do macacão-pequeno tornava-me responsável pelo seu destino, já que ele próprio não aceitava culpas. Uma amiga entendeu de que amargura era feita a minha aceitação, de que crimes se alimentava meu ar sonhador, e rudemente me salvou: meninos do morro apareceram numa zoada feliz, levaram o homem que ria, e no desvitalizado Ano Novo eu pelo menos ganhei uma casa sem macaco.

Um ano depois, acabava eu de ter uma alegria, quando ali em Copacabana vi o agrupamento. Um homem vendia macaquinhos. Pensei nos meninos, nas alegrias que eles me davam de graça, sem nada a ver com as preocupações que também de graça me davam, imaginei uma cadeia de alegria: "Quem receber esta, que a passe a outro", e outro para outro, como o frêmito num rastro de pólvora. E ali mesmo comprei a que se chamaria Lisette.

Quase cabia na palma da mão. Tinha saia, brincos, colar e pulseira de baiana. E um ar de imigrante que ainda desembarca com o traje típico da sua terra. De imigrante também eram os olhos redondos.

Quanto a essa, era mulher em miniatura. Três dias esteve conosco. Era de uma tal delicadeza de ossos. De uma tal extrema doçura. Mais que os olhos, o olhar era arrendondado. Cada movimento, e os brincos estremeciam; a saia sempre arrumada, o colar vermelho brilhante. Dormia muito, mas para comer era sóbria e cansada. Seus raros carinhos eram só mordida leve que não deixava marca.

No terceiro dia estávamos na área de serviço admirando Lisette e o modo como ela era nossa. "Um pouco suave demais", pensei com saudade do meu gorila. E de repente meu coração foi respondendo com muita dureza: "Mas isso não é doçura. Isto é morte." A secura da comunicação deixou-me quieta. Depois que eu disse aos meninos: "Lisette está morrendo." Olhando-a, percebi então até que ponto de amor já tínhamos ido. Enrolei Lisette num guardanapo, fui com os meninos para o primeiro pronto-socorro, onde o médico não podia atender porque operava de urgência um cachorro. Outro táxi ¾Lisette pensa que está passeando, mamãe ¾outro hospital. Lá deram-lhe oxigênio.

E com o sopro de vida, subitamente revelou-se uma Lisette que desconecíamos. De olhos muito menos redondos, mais secretos, mais aos risos e na cara prognata e ordinária uma certa altivez irônica; um pouco mais de oxigênio, e deu-lhe uma vontade de falar que ela mal agüentava ser macaca; era, e muito teria a contar. Breve, porém, sucumbia de novo, exausta. Mais oxigênio e dessa vez uma injeção de soro a cuja picada ela reagiu com um tapinha colérico, de pulseira tilintando. O enfermeiro sorriu: "Lisette, meu bem, sossega!"

O diagnóstico: não ia viver, a menos que tivesse oxigênio à mão e, mesmo assim, improvável. "Não se compra macaco na rua", censurou-me ele abanando a cabeça, "às vezes já vem doente." Não, tinha-se que comprar macaca certa, saber da origem, ter pelo menos cinco anos de garantia do amor, saber do que fizera ou não fizera, como se fosse para casar. Resolvi um instante com os meninos. E disse para o enfermeiro: "O senhor está gostando muito de Lisette. Pois se o senhor deixar ela passar uns dias perto do oxigênio, no que ela ficar boa, ela é sua." Mas ele pensava. "Lisette é bonita!", implorei eu. "Ë linda", concordou ele pensativo. Depois ele suspirou e disse: "Se eu curar Lisette, ela é sua". Fomos embora, de guardanapo vazio.

No dia seguinte telefonaram, e eu avisei aos meninos que Lisette morrera. O menor me perguntou: "Você acha que ela morreu de brincos?" Eu disse que sim. Uma semana depois o mais velho me disse: "Você parece tanto com Lisette!" "Eu também gosto de você", respondi

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Sangrando, perdi o filho que nunca me deste
De sonhos construídos só.

Nem por um descuido do acaso,
Uma intervenção divina,
O impossível aconteceu.

Vi-me perdendo por entre as pernas
- mesmo caminho que percorrera a felicidade
Esse menino encantado
De uma vida não vivida.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Sem nome

Acordou com a impressão de que havia sonhado, mas se tratava apenas de uma sensação de certeza, e nada mais. Não sabia de que conteúdo se tratava, ou se, de fato, o sonho havia ocorrido. Sua sensação era a de quem, mesmo não sabendo exatamente o que se passara, percebia-se diferente. Nada aconteceu, mas algo havia mudado. Não buscava saber da veracidade do acontecimento de seu sonho, pois era como se fosse marcado pela verdade de sua sensação de estar diferente. Não havia, portanto, compromisso com fatos, mas com uma verdade marcada em seu corpo, inscrita de modo extremamente particular, sem qualquer referência a letras ou imagens. Sua respiração, extremamente ofegante, indicava-lhe uma excitação, como se algo de inesperado estivesse prestes a acontecer e ele precisasse ficar preparado para isso. Essa sensação, talvez, já não tivesse mais utilidade, uma vez que algo já havia acontecido, mesmo que não se soubesse o que, ou de que forma a transformação se sucedeu. Não houve, portanto, chance de preparação para qualquer defesa – mas o que foi mesmo atacado? O que foi ferido sem que houvesse seqüelas visíveis, ou qualquer rastro concreto – a não ser a certeza de que algo se inscreveu? Talvez, sua própria necessidade de saber de si. Por que era mesmo que precisava ter a precisão absoluta de seus acontecimentos? Que diferença faria saber narrar exatamente todos os detalhes de sua sensação aparentemente onírica? A estranheza que lhe habitava não sofreria qualquer alteração e, portanto, a inquietude que experimentava não deixaria de estar presente. Sua necessidade de dar coerência a tudo não lhe deixava mais se concentrar em qualquer outra coisa, até que, de súbito, foi tomado por um pensamento: “Preciso dar um nome a isto que me ocorreu!” – falou ele, admitindo já que algo lhe ocorrera. A cada palavra que procurava, percebia completa inadequação. Sua sensação era a de alguém numa terra estrangeira com enorme inquietude e necessidade de se comunicar com um nativo, contudo sem sucesso na efetiva troca que a comunicação exige neste contexto e, a cada tentativa, seu interlocutor lhe dava com os ombros e se irritava cada vez mais. O problema é que sua terra estrangeira e seu interlocutor eram ele mesmo, fato que o deixava ainda mais intrigado. Estrangeiro em seu próprio corpo, ignorante acerca de seus acontecimentos, via-se passivo e tomado por uma enorme frustração – a de nem mesmo nomear seu estado naquele momento. Seu coração batia ainda mais acelerado do que no momento em que acordou e, assombrado, tentou dormir um pouco mais. Mas quem poderia lhe garantir que acordaria melhor? Que parâmetro havia para que tivesse certeza de que não estava mais sonhando? Afinal, já não podia mais distinguir o que era real do que não era e, portanto, não tinha mais certeza alguma. Sua decisão, então, foi, mesmo que estivesse dormindo, dormir – não importava se já estava ou não dormindo, pois simplesmente não conseguia tolerar sua ignorância sobre si mesmo e permanecer alerta quanto a ela significava lembrar-se de um incômodo deveras insustentável para si. Caiu, então, num sono profundo (ou no que julgava ser isto), podendo retomar seu cotidiano, quando dali despertasse. Havia, contudo, a convicção, implícita e assustadora, de que sua mudança, fosse ela qual fosse, era irreversível, inominável e, sobretudo, plena de mistérios.

quinta-feira, 5 de março de 2009

"Porque o amor é um cântico selvagem" - Emanuel Meireles

terça-feira, 3 de março de 2009

Conto de verão no. 3

Era muito improvável. E, por ser improvável, aconteceu.
Eu vi aquele rosto. Tentei reconhecer nele o amor da minha vida. Ele provavelmente fez o mesmo. E, não sabendo ao certo, perdi-me na multidão. A velhice engana os sentidos e faz com que a gente tenha dúvidas sobre o amor da vida. Enganará os onze?
Mas ele foi atrás de mim e me perguntou algo. Ele não perguntou "por acaso você é o amor da minha vida?"; mas perguntou algo, completamente esquecível, que queria dizer a mesma coisa.
- Você não lembrava mais de mim?
- Estava procurando a cicatriz.
- Não curou.
Foi então que ele disse que eu não mudei nada. Que eu continuava animada como sempre - eu, que nem sabia que era animada.
E eu falei que sempre ia a sua cidade, mas que não o via porque não sabia se ele acharia bom ou não.
- Já curou.
Então lhe disse que lembrava dele sempre e que gostava muito dele. Foram dois os beijos em seu ombro e um, que ele me deu na testa antes de partir.
A vontade de chorar vinha de também eu poder dizer que ele não mudou nada - e o beijo na testa dizer que não curou.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

"Sofrer passa. Ter sofrido não passa jamais"

(Léon Bloy)